"PÁTRIA EDUCADORA"

Problemas na educação põem em dúvida a “Pátria Educadora”

Problemas na educação põem em dúvida a “Pátria Educadora” (Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

Para os especialistas, contexto mostra que a educação “não foi, em absoluto, uma prioridade” no Brasil em 2015

Cerca de duzentas escolas ocupadas por estudantes no maior estado do Brasil, quatro ministros da educação diferentes em onze meses e cortes na pasta traçam o cenário de um ano em que a presidente brasileira, Dilma Rousseff, disse que a educação seria sua bandeira.

Com o lema “Brasil, pátria educadora”, Dilma anunciou em janeiro, ao assumir seu segundo mandato, que seu objetivo era converter em “prioridade das prioridades” um setor hoje questionado por centenas de alunos.

Porém, aos problemas gerados este ano pelas constantes trocas de ministros e pelos cortes cortes orçamentários determinados pelas contas públicas deficitárias e pela própria recessão do país , se somou a crise nos sistemas educativos de alguns estados, especialmente em São Paulo e no Paraná, que são governados pelo partido quefaz oposição a Dilma, o PSDB.

O inconformismo com as falhas na educação se estendeu a diversas regiões mas está em xeque atualmente no estado de São Paulo, onde estudantes protestam contra o plano de reorganização da rede de ensino imposto pelo governo regional.

É o caso de Dafine Damasceno Cavalcant que, quando entrava na Escola Estadual Professor Sílvio Xavier Antunes, no bairro do Piqueri (Zona Norte) e que está ocupada com os estudantes, explicou à EFE que o motivo do protesto é “lutar para manter nossa escola aberta”.

Damasceno tem 17 anos e este é seu último ano escolar, o que a impediu de acampar em sua escola três semanas atrás para garantir que não arrombassem o cadeado.

“Aqui vem gente da periferia, das favelas, e necessitam que o colégio esteja aberto porque se não estão na escola, estão no crime”, afirma.

Como ela, outros estudantes se juntaram em 208 centros – 192, segundo a Secretaria Regional de Educação – para protestar contra o projeto de reorganização da rede de ensino regional, uma iniciativa que prevê o fechamento de 93 escolas e a transferência de milhares de alunos para outras unidades.

O governo regional justificou esta decisão com o argumento de que o número de alunos reduziu nos últimos anos como consequência do envelhecimento da população.

Entretanto, Damasceno denunciou que alunos dos colégios que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, propõe fechar contam inclusive com classes lotadas: “na Sílvio Xavier, algumas salas chegam a ter quarenta ou cinquenta alunos”.

Os alunos clamam também que o projeto não foi debatido com a comunidade educativa antes de ser anunciado, mas após dias de disputas com as autoridades nenhuma das partes parece disposta a ceder.

“Querem nos vencer através do cansaço”, afirmou Damascenos antes de acrescentar: “nao sabem que nossa próxima tática é paralisar a cidade”.

Nesta quinta, dezenas de piquetes bloquearam com carteiras e cadeiras as principais avenidas de São Paulo para pressionar Alckmin, um importante dirigente do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), maior força de oposiçao a Dilma a nível nacional.

Esse tipo de protesto se generalizou nos últimos dias com confrontos com a polícia e ganha força ante a negativa do governador de desistir do plano de reorganização.

Porém, os enfrentamentos com a polícia não são exclusivos de São Paulo, já que em abril uma manifestação de professores em Curitiba, capital do Paraná, acabou com 200 manifestantes feridos, muitos dos quais tiveram que receber cuidados médicos em hospitais.

Os docentes estavam em greve havia dias contra a modificação das regras de aposentadoria e a repercussão do protesto levou inclusive a Dilma a condenar a repressão policial.

“Tem sido um ano dramático”, disse à Daniel Cara à EFE, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, uma rede que aglutina entidades e organizações da sociedade civil.

Cara insistiu na “delicada situação” que atravessa o setor educativo no Brasil e apontou os cortes orçamentários como uma das principais causas.

E, segundo os analistas consultados pela EFE, o Ministério da Educação é um dos que mais têm sofrido com o ajuste fiscal imposto por Dilma para tentar reverter as maltratadas contas públicas e frear a grave crise econômica que atravessa o país.

“Os recursos não estão chegando aos municípios e isso gera indignação”, assegura Cara.

O analista do instituto de ensino e pesquisa Insper, Fernando Schüler, foi além e afirmou que “o Brasil tem um problema estrutural e está amarrado a um modelo fracassado”.

Para Schüller, a chave está na “má gestao” das escolas públicas que, a seu juízo, “determina o resultado do desempenho dos alunos”.

De acordo com ele, “2015 foi um dos piores anos para a educação brasileira” porque “o país não soube inovar” e “pela mudança constante de ministros”.

Um conjunto de ingredientes que evidenciam, para os especialistas, que a educação “não foi, em absoluto, uma prioridade”.

Por Alba Gil, correspondente da Agência EFE




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