Herança cultural

Peru quer resgatar suas línguas nativas

  • País quer oficializar 47 línguas nativas até 2017

Peru quer resgatar suas línguas nativas Foto: EFE/Paolo Aguilar

No Peru existem cerca de 10 línguas que tem entre 20 e 200 falantes, outra com 1500 falantes e a mais comum da Amazônia, o asháninka, que tem cerca de 400 mil falantes.

Quando o último falante da língua Taushiro morrer, este idioma desaparecerá totalmente das selvas peruanas. Uma tragédia cultural que as autoridades do país querem evitar que continuem acontecendo com as outras línguas nativas do país, por isso estão trabalhando na oficialização dos alfabetos dos 47 idiomas nativos do Peru.

“A ideia é que em 2017 já tenhamos oficializadas as 47 línguas nativas; além destas, outras 37 línguas já foram extintas durante o período republicano” falou à Efe a Diretora Geral de Educação Intercultural Bilíngue e Rural do Ministério de Educação (Minedu), Elena Burga.

O Minedu oficializou semana passada, como parte dos seus trabalhos, os alfabetos de 24 idiomas nativos, a maioria da região amazônica, dentre os quais já se tem normas linguísticas para 26 deles, incluíndo o quechua e o aimara, que foram oficializados em 1985.

Estes alfabetos, que serão obrigatórios em todas as entidades públicas, são: al harakbut, ese eja, yine, kakataibo, matsigenka, jaqaru, nomatsigenga, yanesha, cashinahua, wampis, secoya, sharanahua, murui-muinani, kandozi-chapra, kakinte, matsés, ikitu, shiwilu, madija e kukama kukamiria.Também foram oficializados os alfabetos: asháninka, awajún, shawi e shipibo-konibo.

“Essas línguas sempre tiveram alfabetos feitos por alguns linguistas e pesquisadores, mas não eram oficiais e em muitos casos linguísticas ou instituições usavam letras distintas uma das outras”, explicou Burga.

A funcionária destacou que durante os trabalhos, que começaram em 2009, os especialistas do Minedu buscaram sempre “chegar a um consenso” que conte com a aprovação das comunidades.

Ao longo dos anos, muitos destes idiomas se extinguiram por uma “falta de políticas de estado, para dar a estes povos a possibilidade de desenvolvimento”, acrescentou.

“O surpreendente é como se mantiveram por tanto tempo essas línguas de povos indígenas, levando em consideração que durante 500 anos não houveram nenhuma política para sua valorização”, enfatizou.

Burga também alertou que, com certeza, “as extinções se aceleraram nos últimos 20 anos e [os idiomas] estão sendo totalmente destruídos devido ao advento da tecnologia”.

Entre os vários exemplos, ressaltou o do Taushiro, um idioma da zona do rio Tigre, na região amazônica de Loreto, que atualmente “só uma pessoa fala”.

“É um caso muito particular, antes existiam duas comunidades de poucas pessoas que falava esta língua, porém houve uma epidemia de hepatite B. Agora este sobrevivente vive próximo ao Rio Tigre e também fala o espanhol, porque não tem com quem conversar na língua materna”, relatou.

Mesmo que o governo local de Loreto tenha feito um dicionário de Taushiro e que “existam linguistas que eventualmente vão a Iquitos trabalhar com ele”, Burga lamenta que “o dia que este senhor falecer a língua inteira morrerá”.
No Peru existem cerca de 10 línguas que tem entre 20 e 200 falantes, outra com 1500 falantes e a mais comum da Amazônia, o asháninka, que tem cerca de 400 mil falantes.

Burga também considerou “complicado” recuperar o idioma Muchik, que se falava no antigo povoado Mochica na costa norte do país e, no qual alguns especialistas planejam trabalhar para “reviver” apesar da extinção durante as primeiras décadas do século XX.

“O governo regional de Lambayeque quis recuperar um pouco do Muchik mas está muito difícil porque não existe nenhum falante, só sobraram as palavras e alguns dicionários, mas este tipo de línguas não dá para recuperar”, explicou.

Na Amazônia existem outros casos, como o do Iquito, que dá nome à cidade mais importante da selva peruana, mas que “somente se fala em três pequenas comunidades”.

“As crianças não falam, só alguns velhinhos, mas eles estão tratando de ensinar seus filhos a língua, a partir da normatização de seu alfabeto, e acabam se emocionando porque este não é apenas um processo técnico”, ressaltou.

Burga ainda destacou que o Peru é “um país pluricultural e multilíngue” que precisa que “os serviços do Estado cheguem às pessoas nas suas línguas respectivas”.

“Cremos que é um potencial [do país] o desenvolvimento das culturas e que as línguas devem continuar existindo”, concluiu.




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