EDUCAÇÃO INTEGRADORA

“Hand in hand”, rede de escolas para árabes e judeus em Israel

“Hand in hand”, rede de escolas para árabes e judeus em Israel Foto: EFE/Yossi Zamir

“Este é o único lugar de Israel onde podemos ver algo assim”

de Cristina García Casado
Em seis escolas de Israel, 1.350 crianças árabes e judias compartilham aulas, aprendem a língua uma das outras, brincam juntas, contam as histórias de suas famílias e constroem de mãos dadas (“Hand in hand”) comunidades integradoras em uma sociedade destruída.

Quando Fadi Suidan se mudou para Jerusalém com a sua família, procurou uma alternativa para estudar num sistema de escolas públicas que separa as crianças e perpetua o modelo de sociedade aonde pequenos judeus e árabes não mantém espaços de convívio.

Hoje sua filha de oito anos, árabe, estuda em um dos seis centros que a rede de escolas “Hand in hand” criou desde 1998 com financiamento público, ajuda estrangeira e uma cota anual de 1.300 dólares, orçamento próximo ao de algumas escolas especializadas da região.

“Nesta escola, especialmente nos momentos mais difíceis como na guerra em Gaza no ano passado, nós saímos a falar que, aconteça o que acontecer do outro lado destes muros, aqui dentro queremos ficar juntos”, explica Suidan à Efe em uma das aulas na unidade que a rede mantém em Jerusalém.

Nesta classe se viveu no último mês de dezembro o capítulo mais duro da história destas escolas: três jovens judeus de uma organização radical queimaram a classe depois de invadir o colégio aproveitando que estava vazio e deixaram para trás desenhos racistas contra os árabes e a convivência.

“Neste momento foi quando mais nos demos conta de que éramos um objetivo. De que existe algo no mero ato de ficar juntos que é muito ofensivo para algumas pessoas”, conta a Efe Noa Yammer, uma jovem judia dos EUA que vive desde os 18 anos em Israel e coordena a comunicação da rede de colégios “Hand in hand”.

“No ano passado fomos vítimas de vários ataques, a maioria de extremistas judeus, sempre com teor racista contra os árabes. (…) Temos muita gente que nos apoia, mas existe muitas pessoas que não querem que o que fazemos aconteça” acrescenta.

Os ataques foram para o “Hand in hand” uma lembrança do quão arriscada é a sua proposta em uma sociedade dividida pelo conflito israelita-palestino, mas também os serviu para comprovar que muitos enxergam no seu modelo integrador uma possibilidade de futuro.

No dia seguinte aos ataques, centenas de pessoas se juntaram no colégio atacado em solidariedade ao projeto e, após uma semana, já eram mais de 2 mil os que se manifestavam em defesa do modelo da rede.

O ataque colocou a escola no foco e por ela passaram muitos políticos e líderes comunitários desde o acontecido, tanto árabes como judeus.

O primeiro ministro israelense, Benjamim Netanyahu, recebeu as crianças do colégio na sua casa e, o presidente dos EUA, Barack Obama, convidou eles à Casa Branca.

A comunidade do “Hand in hand”, que já conta com mais de 3 mil pessoas, saiu fortalecida dos ataques que destacaram a necessidade de sua missão integradora, e continua determinada a seguir crescendo: o objetivo é chegar a 15 colégios nos próximos anos.

Hoje a rede tem 1.350 alunos em seis colégios localizados em Jerusalém, Galilea, Wadi Ara, Tel Aviv, Yafo e Tira. As aulas não somente ensinam às crianças a tolerância como recebe as famílias com programas comunitários, que vão desde o esporte até a arrecadação de fundos para vítimas de conflitos.

Nestas escolas as crianças não só aprendem a língua do outro como também narrativas diferentes das que escutam em casa, por exemplo, os livros de história incluem os pontos de vista israelense e palestino.

Nesta disciplina, a mais delicada para a rede, dois professores apresentam aos estudantes os acontecimentos históricos, um árabe e um judeu, mostrando as diferenças entre as versões e ensinando tolerância ao mostrar que o importante não é estar de acordo mas sim estar disposto a escutar o próximo.

Esta rede de escolas tem também seu próprio calendário escolar, ou seja, todas as crianças celebram normalmente todos os feriados judeus, cristãos e muçulmanos.

Mais complexo é o momento de abordar as festividades nacionais do Estado israelense, como o dia que comemora a declaração de independência de 14 de maio de 1948.

“Para os judeus, esse dia é o momento milagroso em que, depois de anos de perseguição e do Holocausto, eles recebem sua terra. Mas, para os palestinos, a recordação do dia é uma catástrofe nacional, o momento em que seus familiares foram expulsos de suas casas, se tornaram refugiados e se perderam muitas vidas e propriedades”, explica Yammer.

A jovem judia relata que “na escola não encontramos ainda uma solução perfeita, mas damos a possibilidade às crianças que contem suas próprias histórias, qual o ponto de vista de sua família”.

Essa mesma filosofia é aplicada para abordar os momentos mais difíceis do conflito atual, como a guerra do ano passado em Gaza.

“Juntamos as famílias na biblioteca e oramos juntos por uma melhor situação para a região. Um judeu falava a um árabe que esperava que seus familiares em Gaza não ficassem feridos e o árabe respondia que desejava que seu filho, que é soldado, voltasse são e salvo de Gaza” conta Suidan.

“Esse é o único lugar de Israel onde podemos ver algo assim”, conclui Suidan, um dos milhares de pais que esperam ver seus filhos criarem suas personalidades nessa escola diferença, que semeia uma sociedade mais integradora.




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