Censura

Governo islamita da Turquia quer tirar Darwin dos livros didáticos

Governo islamita da Turquia quer tirar Darwin dos livros didáticos O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. EPA/Tumay Berkin

O AKP já tentou introduzir teorias criacionistas no ensino público em 2006, mas a oposição conseguiu impedir a mudança naquela época.

O governo islamita da Turquia pretende eliminar a teoria da evolução de Charles Darwin da grade curricular das escolas do país, apesar das críticas da oposição e da comunidade científica.

De acordo com o vice-primeiro-ministro turco, Numan Kurtulmus, professor de Economia na Universidade de Istambul, as teorias de Darwin são “cientificamente velhas e podres, nenhuma regra diz que essa teoria deve ser ensinada”.

O governante Partido de Justiça e Desenvolvimento (AKP), de tendência islamita conservadora, pretende substituir o capítulo de “O começo da vida e a evolução”, que inclui Darwin e outros cientistas, por um tema mais amplo que se chamará “Seres vivos e meio ambiente”.

A mudança incluirá teorias criacionistas, ou seja, a crença religiosa de que o Universo e a vida têm origens divinas, e não biológicas.

O projeto educativo do AKP, além de excluir a teoria naturalista, reduz o espaço dedicado ao pai e fundador da República, Mustafa Kemal Atatürk, e introduz várias partes sobre a fracassada tentativa de golpe de Estado ocorrida no dia 15 de julho do ano passado.

Partidos opositores e instituições educativas criticaram a medida por pretender “islamizar” a educação ao excluir teorias científicas e reforçar o criacionismo.

“A teoria da evolução não pode ser caricaturada como dizer que o homem vem do macaco. Queremos que o evolucionismo continue nos livros didáticos das escolas”, criticou o presidente do sindicato de professores EGITIM-SEN, Kamuran Karaca.

O Ministério da Educação turco apresentou a medida no dia 13 de janeiro e abriu um site durante um mês para coletar objeções. Até o fechamento do prazo, em 13 de fevereiro, foram recebidos 184 mil comentários.

“As críticas se concentram em dois temas: as pessoas querem ver os valores republicanos e de Atatürk no plano de estudos. Além disso, querem uma educação científica, laica e democrática, e se opõem à eliminação da teoria da evolução”, analisou Karaca.

O governo antecipou que terminará de definir o plano de estudos no dia 20 de fevereiro e os novos livros didáticos começarão a ser usados a partir de dezembro.

“Como podem considerar todas essas críticas em apenas uma semana? Isso significa que não levarão em conta nenhuma proposta. O AKP dará mais ênfase à identidade islâmica, de acordo com seu projeto de criar gerações mais religiosas”, comentou Karaca.

“Excluir a teoria da evolução priva os estudantes de um conceito biológico fundamental que os ajuda a aprender o processo de pesquisa científica”, denunciou Bekir Kuru, professor de Medicina na Universidade 19 de Maio.

O opositor Partido Republicano do Povo (CHP) também criticou a medida. O vice-presidente de seu grupo parlamentar, Özgur Özel, considerou que “o temor dos círculos conservadores e islamitas é, de fato, um temor ao macaco”.

Em declarações à Efe, Özel prometeu que o partido fará o possível para manter a teoria da evolução na grade curricular das escolas porque a Turquia não poderá ter um futuro próspero com gerações que a desconhecem.

“Diria ao deputado Kurtulmus que perca o medo do macaco. Ninguém chama o meu avô de macaco, ninguém chama o avô de macaco”, destacou Özel.

O AKP já tentou introduzir teorias criacionistas no ensino público em 2006, mas a oposição conseguiu impedir a mudança naquela época.




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