INCLUSÃO

Ensino médio ainda é barreira para alunos com deficiência no Brasil

Ensino médio ainda é barreira para alunos com deficiência no Brasil Foto: EFE/Juan Carlos Cárdenas

Embora em números a inclusão de alunos com deficiência na rede pública de ensino é cada vez maior, efetivamente estes alunos nem sempre conseguem estar totalmente incluídos nas escolas regulares.

Apesar de aumentar a cada ano o número de estudantes com deficiência matriculados em escolas públicas, o Brasil ainda tem grandes desafios para realizar uma inclusão efetiva em seu sistema de ensino. Segundo levantamento recente da organização Todos Pela Educação, 92,7% dos estudantes com deficiência já frequentam classes regulares da rede pública de educação. Em um período de cinco anos (2009-2014) o número de matrículas destes alunos subiu de 365 mil para 655 mil.

Embora as cifras apresentem uma melhora, a realidade é que essa inclusão acaba sendo restrita a algumas etapas do conjunto de ensino, conforme explicou ao EFE Escola a coordenadora-geral do Todos Pela Educação, Alejandra Velasco. “A inclusão é cada vez menor no ensino médio” afirma Velasco, destacando que “a inclusão está sendo bem sucedida principalmente no ensino fundamental. Precisamos ver porque essas crianças não estão chegando no ensino médio”.

O auxiliar administrativo Jorge Rodrigues contou à Efe sua experiência como surdo num colégio inclusivo da rede pública de ensino: “O colégio se diz inclusivo mas é só na teoria porque na prática não é tão inclusivo. O colégio não tem estrutura, não tem professores treinados para lidar com surdos, não sabem da cultura surda”.

Rodrigues destaca que no primeiro ano do ensino médio, quando ainda estudava no colégio, havia uma coordenadora especializado em surdez, porém esta foi demitida posteriormente com a justifica de não haver necessidade de uma coordenação específica ao assunto, no entanto, “a questão que fica: como é que vão saber se o interprete é bom ou não? Como vão saber se os surdos estão conseguindo lidar com os outros alunos? Como receber feedback dos surdos se os coordenadores não sabem sobre a inclusão social?”

Após a demissão da coordenadora surda que cuidava dos casos específicos, Rodrigues conta que “contrataram um interpréte péssimo” para ele. “É claro, reclamei várias vezes e fui ignorado. Repeti de ano”. O auxiliar hoje questiona a estrutura de acessibilidade oferecida, confirmando que na prática, a inclusão é “quase zero”.

Velasco destaca que para efetiva integração não basta os alunos com deficiências estarem em classes regulares de ensino, “os professores precisam ser formados para fazer esse atendimento para crianças com necessidades especiais, para que elas tenham o proveito acadêmico necessário”. A especialista também destacou que a inclusão visa “não só desconstruir o preconceito mas construir outras habilidades importantes nas outras crianças”.

“No ensino fundamental não há duvidas de que a inclusão deve acontecer nas salas regulares, e o Brasil avançou muito no sentido de tirar as crianças do atendimento especializado, das escolas especiais, que mantinham essas crianças isoladas, e incluí-las em escolas regulares” defende Velasco, que destaca que a batalha contra o preconceito “depende justamente da convivência, o que nos parece estranho depende do que a gente costuma se relacionar, por isso é importante que as crianças se relacionem desde cedo com diferentes realidades”.

Rodrigues, que também estudou em colégios especializados para surdos, conta que “o método de aulas nas escolas especializadas deveria ser diferenciado, pensando no desenvolvimento do surdo”, pois segundo ele, não se pode ignorar que eles aprendem “duas línguas paralelamente: a Libras e o Português”.

“É o dever das escolas especializadas realizar a inclusão, inserir o surdo na sociedade, entender a importância da inclusão social, e não vejo isso acontecer”, completou Rodrigues, que acredita no poder de escolha destes jovens, já que “o próprio surdo deveria escolher onde estudar. afinal, ele precisa estar confortável”. Segundo Rodrigues, “é mais confortável estar perto de quem sofre o mesmo que você do que com quem não compreende você”.




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