TRIBO SAMBURU

Educação freia práticas mais selvagens de tribos do Quênia

Educação freia práticas mais selvagens de tribos do Quênia (Foto: Alba Villén/EFE)

Atualmente, 90% das jovens da tribo Samburu, do norte do Quênia, sofrem mutilação genital. Somente em 2011 o país começou a tomar medidas mais sérias contra isso

Por Alba Villén, da Agência EFE

Nos últimos anos, o poder dos livros e da educação contribuiu para reduzir a mutilação genital e os casamentos infantis no Quênia, onde essas práticas ainda ocorrem entre algumas tribos, como os samburus.

Em 2011, o país aprovou uma lei que criminaliza a mutilação genital, além de criar o Comitê Anti-Multilação Genital Feminina (MGF), que começou a funcionar no ano passado e tem poderes judiciais para punir tais práticas.

Gladys Puchaicela, missionária de Santa Teresita que trabalha há seis anos na defesa dos direitos da mulher, adverte que os samburus “riem do governo” e seguem somente o que está de acordo com sua cultura.

“Quero que me circuncidem porque quero deixar de ser uma menina, ser uma mulher e ter relações”, afirma Puchaicela, menina da tribo localizada ao norte do país, onde se pratica a MGF por cultura, não por religião. Atualmente, 90% das menores são circuncidadas porque, do contrário, a comunidade as repudiam por “serem meninas”, com quem os rapazes jamais se casarão.

No entanto, Irenne, uma adolescente, advertiu a seus pais que não permitirá que a mutilem. A jovem, uma das poucas afortunadas que chegou à Universidade de Nairóbi, encontrou apoio de seus irmãos para sustentar sua opção, apesar da insistência de seu pai e da desaprovação da comunidade.

“Haverá uma mudança geracional por meio da educação, as meninas que hoje estão estudando não querem praticar a ablação (nome dado à mutilação genital feminina) em suas filhas. Mas também não podemos violentar a cultura. Atuamos através da educação e do tempo”, afirma à EFE Guillermo Álvarez, sacerdote que trabalha com comunidade.

Frequentemente, as menores são casadas com velhos, passando a ser a terceira ou quarta esposa. Relegadas às tarefas domésticas, as pequenas vivem uma infância fugaz, na qual se ocupam de coletar lenha, água, ordenhar o gado e cuidar dos bebês.

No entanto, a educação consegue romper as tradições mais arraigadas da tribo, como mostra Robert Lentaguo, diretor de um colégio na região. Ele encorajou sua mulher a cursar a Universidade enquanto ele cuidava do bebê. “No início, a comunidade ria dele. Hoje ele é um dos homens mais respeitados”, contam os missionários.

“As meninas e meninos que hoje estudam têm namorados de sua idade e se casam por amor. São extrovertidas e sabem falar em público, algo impensável para a comunidade”, conta à EFE Mercedes Barceló, presidente da ONG África Digna, que financia projetos educativos na região.

Na árida savana de Samburu, quando os meninos alcançam a adolescência, também são circuncidados. Na cerimônia, bebem sangue de vaca e festejam durante dias a sua passagem para a próxima etapa: a de guerreiro, quando se ocuparão da defesa da tribo com fuzis Kalashnikov e de pastorear o gado grande (vacas e camelos). Quando a vida é tão primitiva, os humanos brigam como animais: os guerreiros roubam gado e se defendem com machadadas.

Mas esse não é o caso de David, Justice e outros cerca de vinte jovens que estudam para se tornar, marceneiros, mecânicos, carpinteiros ou mesmo para se seguirem carreiras no jornalismo ou ingressarem o magistério. “Houve uma grande mudança nos últimos dez anos graças à educação. Os jovens querem estudar, temos muito mais demanda do que podemos suportar”, asseguram membros da Africa Digna.

Todos os sábados, os missionários que trabalham com os saburus projetam filmes para crianças, jovens e adultos. “Um dia, uma criança de só seis anos me disse muito decidida: não passem filme hoje, queremos ver as notícias para ver o Obama”, lembra o missionário sobre julho passado, quando o presidente dos estados unidos visitou o Quênia.

Os samburu escutaram, naquele dia, a mensagem do que consideram um líder, já que seu pai é queniano. “Quando Obama lhes disse que as mulheres não são cidadãs de segunda classe e que é preciso por fim à ablação, ele tocou profundamente esta população que vive a centenas de quilômetros de onde se fazem as leis”, assegura o religioso.




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