EDUCAÇÃO CONTRA VIOLÊNCIA

Conheça a “escola dos esquecidos”, à qual vão apenas crianças que ninguém quer

Conheça a (Foto: Esteban Biba/EFE)

O projeto “Guatemaltecos Extraordinários” busca resgatar  jovens que foram expulsos da escola e que trilham o caminho violento das gangues de rua

Por Pablo L. Orosa, Agência EFE

Há, na Guatemala, uma escola frequentada apenas por jovens que ninguém quer, aqueles expulsos do sistema educacional pela pobreza e a violência. É aqui, na “escola dos esquecidos”, onde mais de cem alunos fogem do destino que lhes ofereceram as gangues de rua.

A seus 19 anos, Rudy está cansado de lutar contra si mesmo e contra o ambiente que o cerca, repleto de brigas, insultos e ódio. Quase todos nesta zona da capital, nas favelas do lixão, estão fartos de si mesmos e de todos. Só sabem odiar.

“Eles precisam sentir-se aceitos”, explica à EFE Ramitis García, psicólogo da associação “Guatemaltecos Extraordinários”, e, por isso, as gangues como a “Mara Salvatrucha” se aproximam do bairro, pois sabem que lá encontrarão meninos dispostos a ingressar em seu reinado de terror.

A maioria, ainda jovens, trocam a maconha pelo crack e as brigas pela completa delinquência. Por isso, são expulsos da escola e encaminhados a um mundo que só entende a linguagem da violência.

“Somos o ultimo elo antes de acabar na rua”, a ultima oportunidade para essas crianças, aponta Juan Carlos Molina, que, há mais de uma década, trabalha com estes grupos de risco e em situação de exclusão social.

Hoje, a escola que sua organização administra, localizada uns metros do lixão, acolhe 135 jovens entre 7 e 20 anos. Lá, os alunos não só aprendem matérias, mas também a entenderem-se a si mesmos.

O centro conta, para isso, com um especialista, um jovem que, como eles, percorreu o caminho da violência e da delinquência das gangues. É ele que lhes ensina a enfrentar seus medos, a brigar contra o reflexo côncavo de si mesmos.

“Eu era uma pessoa solitária, que estava sempre à defensiva e incomodado. Eu prejudicava os demais. Maltratava os professores”, reconhece Rudy, que chegou ao centro há dois anos. Pouco a pouco, ele foi se abrindo, confiando nos demais até que pode se esvaziar do que tinha dentro de si.

Hoje, Rudy não é o mesmo de antigamente: tem um emprego, divide um apartamento com seu amigo e continua ajudando sua família, composta por seus sete irmãos e seus pais.

Com eles, especialmente seu pai, a relação familiar melhorou muito: “Agora podemos conversar e conviver”. Na semana passada, eles celebraram juntos seu aniversário.

Na escola dos esquecidos, a educação vai além das salas de aula: é um projeto que trabalha com famílias, principalmente as mães. “Tratamos de empoderá-las”, enfatiza Molina.

Na vida ao redor do lixão, mal se ganha entre 15 e 25 (1,9 a 3,2 dólares) por dia, quantidade insuficiente para sustentar os filhos. É aí, então, que a pobreza cria seu ciclo vicioso que deixa menores fora da escola e nas mãos das gangues.

Graças à “Guatemaltecos Extraordinários”, quatro famílias já encontraram um emprego fora do lixão. É o primeiro passo para romper o círculo, depois é necessário dialogar, fechar as feridas, aprender a perdoar. “O resgate familiar” do qual fala Molina.

Quando crianças, se sentem à vontade em casa, isto se nota também na sala de aula: “Quando chegam, muitos têm falta de amor, de atenção”, adverte Walter Sánchez, quem a seus 20 anos se transformou em um dos professores mais queridos da escola.

Em sua aula, transformada em um pequeno salão familiar no qual em algumas manhãs se desenham montanhas e sóis que não deixam de brilhar, as crianças aprendem a abraçar.

“É um sinal de que vão no bom caminho”, que poderão se esquivar da violência, porque estas crianças são “os vândalos de dez anos” antes de serem vândalos. E só a “escola dos esquecidos” os pode resgatar.




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