EXTREMISMO RELIGIOSO

No Quênia, um professor muçulmano resolveu combater o extremismo

No Quênia, um professor muçulmano resolveu combater o extremismo (Foto: Xavi Fernández de Castro/EFE)

Ayub Mohamud acredita que uma boa educação e uma melhora na situação financeira são maneiras eficazes de combater o extremismo religioso

As aulas de Ayub Mohamud, professor de estudos islâmicos na escola secundária Eastleigh de Nairóbi, têm um objetivo primordial: ensinar a verdadeira essência do Islã e dotar a seus alunos do pensamento crítico necessário para rejeitar qualquer extremismo religioso.

Seu trabalho não passou despercebido. Recentemente, ele esteve entre os dez finalistas do Global Teacher Prize, nomeação que dá ao vencedor um prêmio de um milhão de dólares. O premio é hoje o protótipo de um “Nobel da Educação”.

“O Quênia enfrenta a vários desafios que afetam especialmente os mais jovens, como a pobreza, o desemprego, a radicalização e o extremismo. Gosta integrar estes problemas em minhas aulas para que os alunos sintam que eles devem ser parte da solução”, explica a Efe Mohamud.

Nascido em Wajir, um distrito do norte do país de maioria muçulmana que convive com o terrorismo, este jovem professor conhece de primeira mão o discurso que utilizam grupos radicais islâmicos como Al Shabab para recrutar a jovens da comunidade.

“É importante que meus estudantes entendam o que é o extremismo, que possam denunciar qualquer atividade suspeita e possam enfrentar a ideologia destes grupos para não cairem em suas redes”, afirma.

Após 10 anos dando aulas em Wajir, Mohamud foi trasferido para Eastleigh, que recebe o nome do bairro de Nairóbi na qual está localizada. O bairro em questão também é de maioria muçulmana e, em certa medida, sofre com os mesmos estigmas e desigualdades que a zona norte do Quênia. Os muçulmanos que vivem em Eastleigh se sentem abandonados pelo governo e o Al Shabab tenta se aproveitar disso.

Para Mohamud, esse discurso retorcido só pode ser combatido com a educação: “Quando recebemos uma boa educação, é possível devolver à sociedade o que aprendemos. Mas se alguém faz parte de um grupo terrorista, a sua vida se acaba ali”, seja porque acabará morto ou porque essa sociedade contra a qual se luta te dá as costas.

“O Al Shabab quer dividir o país entre cristãos e muçulmanos, mas na Somália muçulmanos são mortos nas mesquitas e esses criminosos – não têm outro nome para eles – utilizam a religião como desculpa. Mas seu objetivo é político, querem poder”, acrescenta.

Por isso, seu trabalho não se limita a assinalar as contradições do extremismo islâmico. Mohamud quer que as pessoas de Eastleigh assuma sua parte de responsabilidade na luta contra o radicalismo e encoraje a seus alunos a discutir estes temas com parentes e amigos, de modo que a mensagem de paz tenha um impacto na comunidade.

No entanto, resistir à tentação do dinheiro fácil de Al Shabab não é simples para quem vem de uma família pobre e sem possibilidades de prosperar. Portanto, Mohamud decidiu aproveitar seus conhecimentos empresariais para estimular o engenho de seus alunos e de quebra oferecer-lhes uma oportunidade para ganhar dinheiro.

Eastleigh, como muitos outros bairros de Nairóbi, tem um sério problema de poluição e má gestão de resíduos. O lixo, que se amontoa nas esquinas, é um risco para a saúde pública e obstrui os sistemas de esgoto durante as épocas de chuva.

Um dos desfeitos mais comuns são as garrafas e outros resíduos de plástico. Junto a seus alunos, eles viram a oportunidade de conseguir matérias-primas a custo zero e agora se dedicam a apanhá-las durante os fins de semanas para fundir o plástico e fazer peças que depois vendem.

“O plástico desprezado se transforma em um negócio e permite aos estudantes ganhar um pouco de dinheiro, o que por sua vez lhes mostra como com um pouco de imaginação e trabalho pode criar-se as oportunidades que não têm”, conclui Mohamud.




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